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Minha idéia inicial era a de criar um blog sobre culinária, com experiências e aventuras gastronômicas, dicas, receitas, "pequenos grandes" restaurantes (e botecos... e pé-sujos...).


Na verdade, tenho um desejo, lá no fundinho, de ser chef de cozinha, mas como isso (ainda) não foi possível, quero compartilhar com o MUNDO todo, ou pelo menos com meus queridíssimos seguidores, minhas pitorescas histórias no universo da culinária popular, internacional, contemporânea...


Entretanto, como tenho outras paixões, no mesmo nível de força e intensidade - dança, teatro, cinema e música - resolvi misturar tudo... Alhos & Bugalhos... E vamos ver no que vai dar... ;)

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sábado, 14 de abril de 2012

Parte 1 - Ter ou não ter namorado


Retomei o blog definitivamente. Pensando em voltar a um projeto antigo, que é o de escrever um livro. Só que não queria que fosse um livro com meu texto apenas. Quero ter espaço para citar meus poetas preferidos. A inspiração bateu e comecei a rascunhar...

"Ontem, não sei se em sonhos ou se na vida real, fui pedida em namoro. Apesar de impor alguns requisitos (a serem aprimorados), ele não desistiu da idéia, o que me deixou muito, mas muito feliz.

É delicioso estar apaixonada. O mundo inteiro parece estar em paz. Há sempre alguma música na nossa cabeça que nos faz lembrar do outro. É ainda pior quando nos reconhecemos nas músicas bregas. Ah, mas e daí? O amor pode ser brega. Ele tem direito, reconhecido em cartório.

Depois deste pedido, que foi por escrito, aliás, fiquei relendo todas as palavras trocadas, como num livro que está começando. E isto acabou me fazendo lembrar deste texto lindo de Carlos Drummond de Andrade:

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo.

Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção.

A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado.

Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.

Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.

Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.

Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horase horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele;abobalhados de alegria pela lucidez do amor.

Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar.

Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz.

Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.

Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre, e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança.

De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada.

Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.

Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.



(continua em breve...)

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